A Itália é como um livro

E como todos os livros possui um…

Prefácio

Perambular pelas ruas na Itália é como viajar a bordo de um livro de história. Uma belíssima edição ilustrada e em cores. Cada esquina tem alguma coisa para contar. Basta estar atento e ouvir. Saint-Exupéry, autor de O Pequeno Príncipe, escreveu: “Somente podemos ver bem com o coração”. Mesmo podendo perceber a Itália através de todos os nossos sentidos, somente o coração pode ver aquilo que é invisível aos nossos olhos… o essencial. A arte, literatura, cinema, arquitetura, o aroma do cappuccino, o cheirinho da pizza, o sabor do vinho, as janelas floridas, o acordeão que pelas ruas toca O Sole Mioa Itália é tudo isso!

Para mim a Itália tem algo mágico. Encontrar nas páginas desse hipotético livro a minha própria história, as minhas raízes, tem um valor indescritível. E foi em Torreglia, uma pequena e acolhedora cidade da província de Padova, no Vêneto, que encontrei um capítulo especial. Neste resumo, faço uma introdução sobre o que a Itália tem para contar.  Acompanho vocês nesta viagem!

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A Itália em capítulos– da Pré-história à Idade Média…

O primeiro capítulo desse livro nos leva à Pré-história. A Itália era habitada já no período Paleolítico e,  segundo artigo publicado na revista National Geographic, o sítio arqueológico Monte Poggiolo, na Emilia Romagna, é a mais antiga evidência da presença humana na península. “Eram Padanos os primeiros habitantes da Itália. Os primeiros hominídeos chegaram ao Vale do Pó há cerca de 850 mil anos, após drásticas mudanças climáticas”, afirma o artigo.

No segundo capítulo, um giro pela história antiga nos faz resgatar as civilizações etrusca, fenícia, grega e romana. Palermo, fundada pelos fenícios, Nápoles e Roma representam as cidades mais importantes deste período. Folheando as páginas descobrimos que a organização sócio-política romana deixou uma marca indelével na história da humanidade. Os romanos construíram cidades, portos, estradas, aquedutos e fortificações e não é raro nos vermos frente a frente a um sítio arqueológico romano. A história se abre viva diante dos nossos olhos.

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Quer dar uma volta pela Idade Média? Ok… isso também é possível.  As festas medievais são sempre uma atração. Eu tive o prazer de viver o período medieval em Correzzola, um município da província de Padova que, desde então, é habitada por uma pequena comunidade. Todos os anos, em julho, Correzzola é magicamente ambientada para reviver o período das trevas e… minha nossa, que aventura! Acabei com a cabeça no pelourinho (gogna em italiano) que, na verdade, é o final da palavra vergogna (vergonha em português) e é exatamente isso que sentimos quando nos encontramos naquela posição embaraçosa. Por sorte, o meu “carrasco” de Correzzola tinha bom coração e me libertou ou eu não estaria aqui contanto o terceiro capítulo deste livro.

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Correzzola, magicamente ambientata para reviver o período medieval.

O Renascimento, a Idade Moderna, o Ressurgimento, as guerras…

No quarto capítulo viajamos com destino à Idade Moderna.  O portão de embarque é o Renascimento, um período de transição e mudanças na história europeia. Florença desempenha um papel importante neste percurso no qual encontramos Dante, Giotto, Petrarca, Boccaccio, Donatello, Michelangelo, Leonardo… São muitas as páginas que se somam neste voluminoso livro. As descobertas geográficas, as invenções… Marconi inventou o rádio e Meucci, apesar do reconhecimento tardio, inventou o telefone. É o início de uma nova era.

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David de Michelangelo – obra de arte do Renascimento. CC BY 3.0

 

E aqui estamos nós, orgulhosos por combater pela unidade nacional, participando, deste modo, do Ressurgimento Italiano. O Reino da Itália é proclamado, a capital é transferida para Roma e o dialeto toscano é escolhido como língua oficial. Mais tarde, explodem as guerras que deixam marcas. Ainda hoje encontramos pequenas, mas profundas, feridas nos muros, cicatrizes eternas mantidas em memória aos conflitos. Pesquisando encontrei a Brigada Fasolato, uma das tantas que lutou pela Resistência. Tenho perguntado a mim mesma se tive algum parente partigiano, mas essa ainda é uma pesquisa para se aprofundar.

E muito mais por descobrir.

Este livro nos conta ainda muito mais. Em suas páginas verificamos como Veneza, a cidade que parece flutuar, foi construída. A beleza incomparável de Veneza é um convite para se perder em suas “ruas” estreitas, seguir o movimentar das gondolas… se apaixonar em Veneza. E, então, pegar o vaporetto e desembarcar na magia das cores de Burano. Para nós, uma caminhada de encantamentos. Para os pescadores que moram na ilha, no entanto, as cores variadas e fortes com as quais pintam suas casas servem para auxiliá-los a encontrá-las quando imersas na névoa espessa. A história passa diante dos nossos olhos como uma obra de arte do cinema italiano e enquanto cantarolamos Nel blu dipinto de blu entendemos que a vida é bela. No livro Itália, páginas e mais páginas são inseridas diariamente.

Torreglia, um capítulo especial.

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“La caduta degli angeli ribelli” (A queda dos anjos rebeldes) de Agostino Fasolato (c.1750): 60 figuras esculpidas em um único bloco de mármore de Carrara.

Acabamos de chegar em Torreglia, situada aos pés das Colinas Eugâneas. Um lugar especial para mim porque ali encontrei as minhas raízes. Folheando os antigos registros mantidos pela paróquia e pelo cartório municipal encontrei inúmeros Fasolato. Alguns famosos, como Giacomo Fasolato, escritor, linguista e lexicógrafo, nascido em Torreglia em 1682. Ele apreciava tanto o Latim que latinizou a grafia de seu nome tornando-se Jacopo Facciolati. Numerosos também os registros dos Fasolato pertencentes à ordem dos escultores e trabalhadores das pedreiras que figuram nos documentos conservados pelo Arquivo de Estado de Padova. Entre eles, Agostino Fasolato (c.1750) que esculpiu 60 figuras em um único bloco de mármore de Carrara com altura de quase dois metros. “La caduta degli angeli ribelli“, traduzido para o português “A Queda dos Anjos Rebeldes“, foi o nome dado por ele à sua obra.

Porém, foi diante de uma pequena casa feita de pedras e pedaços de tijolos que eu toquei a história mais profundamente. Ali, na via Vallorto, viveu meu bisavô, Valentino, e olhando aquela casa um filme se passou pela minha mente. Imaginei a casa habitada, iluminada somente por uma fraca luz que mal alcançava a janela… Sim, entrei na máquina do tempo e desembarquei no século XIX. Olhei a paisagem através de seus olhos de camponês. Subi pela longa estrada em direção à igreja de São Sabino que, através dos registros de nascimento e casamento, conservou viva a história. Essa mesma história que ainda hoje me conta que em 1895 Valentino Fasolato se casou com Elvira Pressato.

Imaginei Valentino enquanto tomava a decisão que mudaria a vida de toda a família: partir para o Brasil em uma viagem só de ida em um navio a vapor chamado Rosário, que depois de tantas viagens, em 1915, escolheu repousar no fundo do oceano. Enquanto tudo isso passava pela minha mente, os sinos da igreja soavam. Talvez tenham feito de propósito para que eu pudesse escutá-los como Valentino e Elvira os escutaram antes de partir. Apaguei as luzes da cidade na minha imaginação. Experimentei a escuridão, o inverno, a solidão e a fome, que fez com que eles deixassem para trás a sua pátria, os seus laços. Retorno sempre a Torreglia. Gosto de olhar a bela paisagem das colinas. Torreglia me contou muito da minha história. A Itália vai além dos cinco sentidos.

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Acima: Torreglia, província de Padova. Abaixo: a casinha onde morou Valentino, eu e una vista das Colinas Eugâneas.

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Agora, me conte sobre você… Onde você mora? Existe um lugar onde você “deixou” seu coração? Qual cidade da Itália você gostaria de visitar… ou voltar?

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